Pandemia do novo coronavírus faz Paraíba apresentar em abril, o pior desempenho no mercado de trabalho formal dos últimos 25 anos

Em abril de 2020, a Paraíba fechou -8.299 postos de trabalhos formais, conforme indica a divulgação dos dados do Novo CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), apresentados pelo Ministério da Economia. Esse resultado foi o pior para o mês de abril no saldo de empregos dos últimos 25 anos, superando os registros de 2015, quando o mercado de trabalho paraibano assistiu ao fechamento de -2.897 ocupações formais.

Esses números de abril, apresentam evidências dos primeiros efeitos causados pela pandemia sobre a economia do estado. Todavia, é importante considerar que a economia brasileira, já vinha sofrendo efeitos de uma estagnação, que desde 2017, não consegue trazer o país, para o nível de produção alcançado em 2014. Em 2019, setores como a indústria e o comércio, bem como o consumo das famílias, e o nível de investimentos públicos e privados, apresentaram resultados piores, inclusive do que os de 2017 e de 2018. A situação criada pela pandemia serviu apenas para aprofundar ainda mais os atuais problemas econômicos do país e para evidenciar as suas agudas desigualdades sociais.

Outro aspecto que gera preocupação sobre o monitoramento desses números é que desde janeiro, o Brasil estava sem ter informações mensais sobre o fluxo de empregos registrado pelo CAGED, algo extremamente danoso para as análises voltadas ao mundo do trabalho, principalmente em um momento de crise sem precedentes com enormes efeitos sobre a economia do país. No início do ano, o governo federal modificou a forma de levantamento dos registros administrativos do CAGED, dificultando assim a obtenção das informações mensais, gerando a suspensão da divulgação. Trata-se de um problema gerado antes da crise do COVID-19, sendo resultado de uma alteração na forma de levantamento dos dados junto às empresas.

Na Paraíba, esse saldo negativo gerado no quarto mês de 2020 é resultado da admissão de 3.294 trabalhadores e do desligamento de 11.593. No que tange as admissões, observa-se um dos piores desempenhos da série histórica do CAGED. Nota-se que o melhor nível se deu em abril de 2013, quando o mercado de trabalho paraibano admitiu 15.223 trabalhadores. Quanto ao número de desligados, em contrapartida, verifica-se um dos maiores patamares para o mês.

Gráfico 1: Saldo de empregos formais em abril – Paraíba, 2004 a 2020

Fonte: CAGED. Ministério da Economia. Elaboração: Econsult

O resultado acumulado para os quatro primeiros meses de 2020 apresentou o encerramento de -15.411 postos de trabalhos formais na Paraíba. Trata-se do pior desempenho na geração de empregos desde 2007, quando o mercado de trabalho paraibano observou um saldo negativo de -17.245 ocupações. Vale considerar que o primeiro quadrimestre de 2006 destruiu -21.180 empregos formais. No mesmo período de 2019, foram fechados -7.593 postos de trabalho, logo o resultado atual equivale a mais que o dobro do nível registrado no ano passado.

Gráfico 2: Saldo de empregos formais no acumulado de janeiro a abril – Paraíba, 2004 a 2020

Fonte: CAGED. Ministério da Economia. Elaboração: Econsult

Realizando uma análise por unidades da federação, verifica-se que, no mês de abril, o fechamento de postos de trabalho formais na Paraíba ficou na décima sétima colocação, no país, e na quinta posição, no Nordeste. O estado de São Paulo, com -260.902 empregos encerrados, apresentou a maior destruição de empregos. No Nordeste, a Bahia liderou com o fechamento de -32.483 ocupações formais. No acumulado do ano, a Paraíba apresentou o décimo terceiro maior fechamento de empregos formais entre os estados.

Ao se fazer uma análise relativa, tomando como base o estoque de trabalhadores formais existentes em cada estado em 01 de janeiro de 2020, observa-se que o mercado de trabalho mais afetado foi o do estado de Alagoas, que, no acumulado do ano, perdeu -7,37% de seus empregos formais. Em segundo lugar vem o estado de Pernambuco (-4,16%), sendo seguido pelo Rio de Janeiro (-3,51%). A Paraíba assistiu a perda de 3,29% do seu estoque de trabalhadores com carteira assinada, quinto pior resultado do país.

Gráfico 3: Variação relativa no estoque de trabalhadores formais – Unidades da Federação, Jan-abr de 2020

Fonte: CAGED. Ministério da Economia. Elaboração: Econsult

Na Paraíba, o setor do comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas foi o grupo de atividade econômica que mais fechou postos de trabalhos formais em abril, sendo responsável pela destruição de -2.303 empregos (Tabela 1). Em abril de 2019, o saldo também foi negativo, todavia de apenas -26 ocupações. Em segundo lugar vem a industrial de transformação, com o fechamento de -1.716 empregos, sendo seguida pelas atividades de alojamento e alimentação, que encerraram -1.016 postos de trabalho. As atividades administrativas e serviços complementares perderam -676 ocupações formais, enquanto que a construção civil, obteve um saldo negativo de -561 empregos.

No acumulado de janeiro a abril de 2020, a indústria da transformação foi a atividade econômica que mais viu empregos serem destruídos, tendo o fechamento de -5.820 ocupações formais. No mesmo período do ano anterior, esse saldo foi positivo com a criação de 39 novos empregos. Em segundo lugar, vem as atividades de comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas, com o encerramento de -2.897 ocupações, valor bem superior ao saldo negativo registrado no mesmo período de 2019 (-373). As atividades de agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura apresentaram um fechamento de -2.480 empregos, valor bem inferior ao saldo negativo registrado no mesmo período de 2019 (-4.302).

            Apesar desses números já apresentarem evidências dos efeitos gerados pela crise causada pelo COVID-19, vale destacar que grande parte do fechamento de empregos nas atividades agrícolas, e na indústria da transformação, se devem, em grande medida, a entrada das atividades sucroalcooleiras no período de entressafra, que no primeiro semestre de cada ano, costumeiramente apresenta um número de desligamentos bem superior ao registro de admissões.

            Analisando o fluxo de empregos mensal por municípios paraibanos, observa-se que em abril, João Pessoa (-3.963) foi a cidade que mais fechou postos de trabalho, sendo seguido por Campina Grande (-1.661), Santa Rita (-316), Cabedelo (-312) e Bayeux (-278). No acumulado do ano, as cidades que mais perderam empregos formais foram: João Pessoa (-4.775), Santa Rita (-1.580), Mamanguape (-1.478), Caaporã (-1.089) e Patos (-768).

            Na capital paraibana, o comércio apresentou o maior encerramento de ocupações formais (-1.121 empregos) em abril, sendo seguido pelas atividades de alojamento e alimentação (-588 empregos), pelas atividades administrativas e serviços complementares (-469 empregos) e pela indústria da transformação (-419 empregos). Em Campina Grande, o comércio também se destacou com o fechamento de -427 postos de trabalho, sendo seguido pela indústria da transformação (-380 empregos), pela construção civil (-224 empregos) e pelas atividades de alojamento e alimentação (-216 empregos).

            Os dados do Caged mostram evidências de que, até abril, as empresas desligaram parte dos empregados e evitaram repor ou contratar trabalhadores, por isso a redução expressiva no número de admissões, relacionada às expectativas de desempenho da economia. A controversa reabertura gradual das atividades econômicas paralisadas pela pandemia, prevista para junho em diversos estados, embora a Covid-19 não tenha dado sinais de arrefecimento, não será suficiente para a recuperação da economia. A perda de renda da população, que se tem visto, afeta negativamente o consumo e a demanda no setor privado, tornando imprescindível a atuação do Estado na manutenção da renda e na recuperação econômica, por meio de investimentos públicos.

Sazonalidade no fluxo de empregos da Paraíba

Analisando o mercado de trabalho paraibano no período de janeiro de 2008 a abril de 2020, verifica-se que o fluxo de empregos obedece a uma certa sazonalidade em sua estruturação. Os registros mostram que a cada ano, as atividades pertencentes a cadeia produtiva da cana de açúcar – em especial os subsetores da agricultura e da indústria na produção de alimentos e bebidas –  são responsáveis tanto pelos momentos de alta, como também de baixa no fluxo de empregos do estado.

Gráfico 5: Evolução mensal do saldo de admitidos e desligados do mercado de trabalho formal paraibano – janeiro de 2008 a abril de 2020

Fonte: CAGED. Ministério da Economia. Elaboração: Econsult

Conforme se verifica no gráfico 5, nota-se que, em média, os três primeiros meses do ano são marcados pela manutenção de resultados negativos no saldo da geração de empregos, que a partir do quarto mês dão lugar a sinais de crescimento. Constata-se que esses incrementos se mantêm de forma crescente até o oitavo mês do ano, onde atinge seu pico. A partir do mês de setembro verifica-se a manutenção de resultados positivos, porém em níveis decrescentes, que se mantêm até o mês de novembro. E, seguindo a tendência do mercado de trabalho de cada ano, o mês de dezembro se caracteriza como o período do “ajuste geral”, isto é, momento em que se observa um número de demissões maior que o de admissões. Todavia, é importante observar que mesmo a curva da série registrando um comportamento similar em cada ano, a partir de 2015 passa-se a ver um achatamento da mesma, refletindo um desaquecimento do fluxo mensal de empregos na Paraíba.